quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

NAVILOUCA



Os poetas Torquato Neto e Wally Salomão lançaram em 1974 a única edição de Navilouca, revista de poesia que, infelizmente, o grande Torquato não pode ver impressa. Desde 1972, quando ela começou a ganhar forma, já se esperava uma obra que ficou como um marco da produção contracultural da época, uma revista que corria por fora dentro do circuito de poetas-inventores que surgiram entre os anos 60 e 70. A edição conta ainda com a participação luxuosa da tríade concretista, que de algum modo apadrinhou a geração desbundada da poeisa brasileira que corria muito pela canção nos anos de chumbo. Uma revista de arte, arte poética e gráfica. Almanaque dos Aqualoucos, ali Torquato escrevia em letras gigantes: O poeta é a mãe das artes e das manhas em geral. Uma obra-farol, registro de uma época em que a poesia brasileira tomava novo corpo, outros rumos. A edição é raríssima. Mas eterna.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

“TODOS OS DIAS DE PAUPÉRIA”: UMA REVISITA TROPICALISTA AOS ANOS SESSENTA


 
Fábio Leonardo Castelo Branco Brito

Uma história se faz de releituras. E o trabalho do historiador, como produtor de conhecimentos e captador de subjetividades, é trazer à tona as características enunciadas nas teias discursivas, formuladas nas entrelinhas dos textos, dos documentos e da oralidade. Dessa forma, a poesia, a música e o cinema se apresentam como elementos fundamentais de um discurso transgressor, que reúne e traça análises de uma época.

Buscando estabelecer um retrato analítico da invenção da Tropicália dentro de um contexto histórico-cultural dos anos 1960, Edwar de Alencar Castelo Branco traça um perfil deste movimento artístico que serviu como arauto das renovações nacionais no período mais repressivo da história do país, trazendo para tal cenário novos atores, e enfocando nesta discussão o poeta, compositor, jornalista e cineasta piauiense Torquato Neto.

Dono de uma “poética de estilhaços”, e colocando-se como “sujeito dilacerado”, mais pela sua atormentada compleição psicológica que pelo mundo externo, visto como uma mera consequência, o “anjo torto” Torquato serviu de referencial para todo um conjunto de produções culturais da década seguinte, seja na forma das obras literárias da Geração Mimeógrafo, seja na cinematografia experimental com tecnologia super-8. A revisão de sua obra serve como forma de se compreender a realidade cotidiana de um período de transição entre o tradicionalismo de um país de bases desenvolvimentistas e o resplandecer de uma nova democracia, mais crítica, porque mais versátil.

A obra, organizada em quatro momentos, inicia-se com um panorama dos anos 1960, como uma época de tecnologias afloráveis: a conquista do espaço, resultado da Guerra Fria vivida entre Estados Unidos e União Soviética, tem como consequência uma gama de criações que entrariam para o cotidiano nacional, como a televisão, que se transforma em febre e passa a ser vista como maravilha por uns, instrumento alienante por outros. Nesse contexto, a realidade nacional, vívida em sintonia com o mundo, passa a conhecer, ainda que com certo atraso, as provocações de uma juventude que é, antes de mais nada, contra o sistema, a hipocrisia da sociedade, a constituição familiar, e todos os modelos padronizados e enlatados. Os cabelos grandes, a droga como instrumento de experimentação de um conhecimento impenetrável, a volubilidade nas ações. Nesse contexto, enfrentavam-se modelos distintos de juventude, que iam da vinculação direta ao mundo construído ao engajamento esquerdista. Aí, no entanto, aparecia um grupo que não se enquadrava nem neste nem naquele modelo: se mostrava iconoclasta, anarquista em relação a todo e qualquer dogma político, religioso ou social. O tropicalismo aflorava, mais como filosofia de existência juvenil, expandindo-se, depois, para diversas manifestações de arte.

No segundo capítulo, o autor analisa visões divergentes acerca da invenção da Tropicália, lançando, antes disso, conceitos e paradigmas convergentes a este movimento. Oriundos da busca da juventude por uma liberdade de ações (contida em referências literárias, como On the road, de Jack Kerouac), grupos se desligavam do estabelecido e buscavam o novo, seja ele qual fosse. Nesse cenário, Torquato Neto aparece como membro de um grupo constituinte, ao lado dos já referendados criadores do movimento, como Gilberto Gil, Caetano Veloso, Maria Bethânia e Gal Costa. As formulações discursivas são pontos de referência para a construção de um conceito de Tropicalismo, ora visto como uma ação casuística, em termo de movimento organizado, ora como uma ideia para a qual diversos “pais” se apresentam.

O terceiro momento enfoca Torquato Neto, em suas aventuras culturais, resultante de sua postura inconstante, parte de um mundo interior sujeito a disritmias e multifacetas. Do jornalista, assinando as colunas “Arte e cultura popular”, “Música popular” e “Geléia Geral”, ao poeta e músico, Torquato caminha entre a inquietude pessoal à genialidade formulada em seus textos poéticos e em prosa. O tom de desabafo, a revolta política ou o prenúncio de um mundo libertário permeiam o gênio propositor de uma nova linguagem, revolucionária. Edwar Castelo Branco analisa, também, a relação do poeta com o desvio de interesses de alguns dentre os principais membros da Tropicália, sentindo-se este traído pelos seus pares no ideário proposto.

Por fim, o autor analisa nos percursos cinematográficos do “anjo torto” uma busca por referências que fundamentem uma marginalidade. Nas produções efetuadas em Teresina (os filmes O Terror da Vermelha e Adão e Eva do Paraíso ao Consumo), em super-8, o poeta quebra com o formato de narrativa teleológica, estabelecida pelo cinema-padrão hollywoodiano. Parte de um circuito experimental, no Brasil, onde disputas internas opunham marginais e cinemanovistas, Torquato leva os espectadores a uma Teresina construída segundo a perspectiva kitsch de uma cinematografia com conceitos claros – a negação de valores – que pode ser resumida na expressão: “Chega de metáforas. Queremos a imagem nua e crua que se vê nas ruas”.

Em sua “vialinguagem”, dividido entre as dúvidas existenciais e a busca por um não-sei-o-quê que aplainasse seus próprios conflitos, Torquato Neto se mostra como o oráculo pretendido de uma realidade mesclada, dos sabores do novo e das amarguras da repressão. Escrevendo, lendo, tocando fogo nas palavras, formulando e irradiando discursos, devaneando sobre as próprias angústias, Torquato enunciou sua destruição na perspectiva da própria obra, difusa, nos acordes dissonantes dos significados. Num realismo beirando a esquizofrenia, o “anjo torto” escreveu e filmou seu próprio sentimento. Plantou em sua obra sua alma, muito embora seus pares tenham desviado-se dos objetivos centrais, libertários, do movimento tropicalista. “Destruir a linguagem e explodir com ela”: o conceito de um ideário nunca plenamente realizado.


Bibliografia

CASTELO BRANCO, Edwar de Alencar. Todos os dias de paupéria: Torquato Neto e a invenção da Tropicália. São Paulo: Annablume, 2005.

Resenha publicada, incialmente em duas partes, n'O Piagui Culturalista da cidade de Parnaiba - PI.

UM DIA DEPOIS DO OUTRO

I

deu de um tudo
do bom e do melhor
na festa do desataflor
do nosso amor do amor:
convidados e tal
mais uma saudade
do carnaval que ainda não pintou.
ora bolas, esmolas.

II

tudo o que eu quero
é uma questão de gosto:
um beijo, bolero
e pipoca moderna
mais o contraresto
menos nosso imposto
e cada vez mais perto
do porto.

III

coração correto.

(Torquato Neto)

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

HAI – KAISINHO

caminho no escuro.
que é
que eu procuro?

Te. 23/12/61

(Torquato Neto In: Torquatália: do lado de dentro. Paulo Roberto Pires (org.). Rio de Janeiro: Rocco, 2004.

domingo, 25 de dezembro de 2011

Marginália II



Eu brasileiro confesso
Minha culpa, meu pecado
Meu sonho desesperado
Meu bem guardado segredo
Minha aflição
Eu brasileiro confesso
Minha culpa, meu degredo
Pão seco de cada dia
Tropical melancolia
Negra solidão:

Aqui é o fim do mundo
Aqui é o fim do mundo
Ou lá

Aqui o Terceiro Mundo
Pede a bênção e vai dormir
Entre cascas das palmeiras,
araçás e bananeiras
Ao canto da juriti
Aqui meu pânico e glória
Aqui meu laço e cadeia
Conheço bem minha história
Começa na lua cheia
E termina antes do fim

Aqui é o fim do mundo
Aqui é o fim do mundo
Ou lá

Minha terra tem palmeiras onde
sopra o vento forte
Da fome, do medo e muito
Principalmente
Da morte
O-lelê, lalá
A bomba explode lá fora
E agora, o que vou temer?
Yes: nós temos banana
Até pra dar,
E vender

Aqui é o fim do mundo
Aqui é o fim do mundo
Ou lá


(Torquato Neto In Torquatália: do lado de dentro. Paulo Roberto Pires (org.). Rio de Janeiro: Rocco, 2004.)

OBS: música gravada por Gilberto Gil em Gilberto Gil (1968) e por Maria Bethânia em Recital na boate Barroco - Ao vivo (1968)

A Rua



Toda rua tem seu curso
Tem seu leito de água clara
Por onde passa a memória
Lembrando histórias de um tempo
Que não acaba

De uma rua de uma rua
Eu lembro agora
Que o tempo ninguém mais
Ninguém mais canta
Muito embora de cirandas
(oi, de cirandas)
E de meninos correndo
Atrás de bandas

Atrás de bandas que passavam
Como o rio Parnaíba
Rio manso
Passava no fim da rua
E molhava seus lajedos
Onde a noite refletia
O brilho manso
O tempo claro da lua

Ê São João ê Pacatuba
Ê rua do Barrocão
Ê Parnaíba passando
Separando a minha rua
Das outras, do Maranhão
De longe pensando nela
Meu coração de menino
Bate forte como um sino
Que anuncia procissão

Ê minha rua meu povo
Ê gente que mal nasceu
Das Dores que morreu cedo
Luzia que se perdeu
Macapreto Zê Velhinho
Esse menino crescido
Que tem o peito ferido
Anda vivo, não morreu

Ê Pacatuba
Meu tempo de brincar
Já foi-se embora
Ê Parnaíba
Passando pela rua
Até agora
Agora por aqui estou
Com vontade
E eu volto pra matar
Esta saudade

Ê São João, é, Pacatuba
Ê rua do Barrocão.


(Torquato Neto In Torquatália: do lado de dentro. Paulo Roberto Pires (org.). Rio de Janeiro: Rocco, 2004.)

sábado, 24 de dezembro de 2011

Ar Torquato

 "Ar Torquato" de Antonio Quine.



A peça conta a vida e a obra do escritor Torquato Neto, desde a chegada do escritor ao Rio de Janeiro até seu suicídio. Há uma espécie de colagem de textos de Torquato, entre músicas de Caetano Veloso e Gilberto Gil, além de poesias. A melancolia e a estética do absurdo perpassam toda a obra. O Anjo, encaminhado pelo Analista, dá uma missão a Torquato: “desafinar o coro dos contentes”. Torquato vai para o Rio de Janeiro e contesta a ditadura militar e os valores burgueses, através da palavra, numa coluna de jornal. A palavra, mais propriamente a poesia, é o que dá ar a Torquato e que permite que ele continue vivendo. Foi o Anjo que lhe deu o dom da arte e, por isso, quando ele morre, Torquato fica sem ar metaforicamente e se suicida. Antes, ele se interna em uma clinica psiquiátrica e lá encontra outros personagens frustrados.