terça-feira, 19 de junho de 2012

Em nome do pai



Thiago Araújo sobrevoa memórias e fala do pai que, praticamente, não conheceu. O menino tinha apenas dois anos de idade quando Torquato Neto partiu. Por telefone, ele conversou com o Vida & Arte.

Thiago Araújo é filho único de Torquato Neto. Herdou do pai a semelhança física, um certo jeito de olhar, a inquietação ao falar, a dificuldade para dormir. E foi ser piloto. Voa há 16 anos. 

De poesia, não gosta e diz que nem entende. ''Hereditário é doença não é talento'', costuma responder. Mas gosta de saber do poeta Torquato, ler seus escritos, ouvir amigos contando histórias. Formas de transpôr a distância do tempo. 

Hoje, Thiago mora um pouco em Fortaleza, um pouco no Rio de Janeiro. Esta semana, ele estava lá e a conversa teve que ser por telefone. (Sílvia Bessa) 

O POVO - Você tem alguma lembrança do seu pai? 

Thiago Araújo - Bom, lembrança eu não tenho porque quando ele morreu eu tinha dois anos. Mas tem uma cena só que eu não sei se lembrei do tanto que me disseram ou se me lembro mesmo... A lembrança que tenho construí depois dos 16 anos de idade, foi quando fui entender um pouco como é que ele era. Uma professora do colégio, numa aula de literatura, falou do meu pai, contou várias histórias e eu falei: sou filho dele. Ela achou genial, sentou comigo depois da aula e falou horas. Depois disso fui me interessando e construindo a imagem que tenho hoje dele. Até hoje leio muito.

OP - Havia muita cobrança das pessoas que conheciam teu pai? O filho do Torquato ter que ser inquieto, poeta, cineasta, artista. 

TA - Isso tem até hoje. Outro dia mesmo, um amigo que trabalha comigo falou ''Pô cara, você é filho do Torquato? Que legal! Você não escreve poesia?' Como eu sempre digo, hereditário é doença não é talento! Não vou me meter no que não sei. A herança foi só física, eu acho.

OP - As pessoas reconhecem que você é filho do Torquato pela semelhança física? 

TA - Aconteceu várias vezes, em bar, no meio da rua... Há pouco tempo Jards Macalé falou comigo porque lembrou meu pai. ''Você é filho do Torquato? É muito parecido com ele!'. ''De fato sou''. Acontece muito. Ainda mais depois que saiu essa coletânea (Todo dia é dia D). Tem uma foto interna que nem eu conhecia, dá pra ver que somos muito parecidos.

OP - Como é que foi em casa. Vocês falavam em casa sobre o Torquato? 

TA - Acho que pelo fim trágico que houve, minha mãe evitou falar assim até uma certa idade, sabe? Era uma forma de proteção. Ela só veio a falar depois de um certo tempo e ainda assim porque procurei saber. Também vim a saber dele através dos amigos que continuaram freqüentando a minha casa, da minha mãe (Ana Maria Duarte), depois que ele morreu. Era um bando de maluco, umas figuras bem loucas. 

OP - Quem, por exemplo? 

TA - Tipo Damião Experiença, um oficial da Marinha que caiu uma vez de cima de um mastro com a testa no convés do navio, se aposentou e virou artista. Era muito amigo do meu pai. Ele grava uns CDs por uma gravadora chamada Planeta Lama, que ele sozinho vende nas calçadas. Meu pai tinha uma característica interessante que minha mãe contou: tinha uns amigos que só ele conseguia aturar, só ele gostava, ninguém conseguia suportar as pessoas e ele era muito amigo. Então, eu me lembro muito dessas figuras que eram muito diferentes dos pais dos meus amigos de colégio. Final de semana eu ia pra casa de um amigo meu e achava tudo meio careta, mesmo sem saber direito o que era ser careta ou não.

OP - Teu pai nasceu no Piauí, morou um bom tempo na Bahia, e depois foi pro Rio de Janeiro. Você nasceu no Rio mas tem alguma identificação com o Nordeste? 

TA - Claro que tenho. Minha mãe é baiana, meu pai piauiense e eu morei aí, ainda moro um pouco.

OP - Você visitava Fortaleza quando era criança. Vinha para casa de amigos da sua mãe. Em que momento decidiu vir morar aqui? 

TA - Eu sempre fui a Fortaleza desde pequenininho. Até pela proximidade com Teresina, quando eu ia passar férias lá, passava por aí.

OP - Você tinha esse contato próximo com seus avós? Passava as férias em Teresina? 

TA - Quando eu era pequeno, não sei se por exigência dos meus avós, era obrigado (risos), mas como eu não conseguia ficar um mês em Teresina dava um jeito de fugir para Fortaleza. Hoje, eu moro meio aí, meio aqui. Mas eu sempre fui a Teresina.

OP - Seu pai passou por Fortaleza? 

TA - Acho que não. Eu não tenho certeza mas nunca vi nenhuma referência sobre isso. Nas várias matérias que venho juntando há muito tempo nunca citaram que ele tenha estado em Fortaleza. Ele ia muito a Salvador. Tinha uma relação forte com a Bahia e com o Rio, que era pra onde a turma vinha naquela época porque era aqui que as coisas aconteciam naquele tempo. Hoje, nem tanto mais.

OP - Mas ele sempre voltava pra Teresina. 

TA - Quando ele ficava inquieto, a primeira coisa que fazia era voltar pra Teresina. Um lugar onde ele se acalmava. Talvez pelo ambiente de casa, não sei exatamente o porquê. Mas nas crises era a primeira coisa que ele fazia. 

OP - Você se acha parecido com ele? 

TA - Outro dia a minha mãe falou: ''Impressionante essa coisa que você tem do seu pai''. Tenho uns amigos que todos acham insuportáveis, mas eu adoro, acho eles maravilhosos. Meu pai era a mesma coisa. E também sou inquieto o tempo todo, tenho dificuldade pra dormir.

OP - Seu pai tinha momentos de muito recolhimento, de entrar no mundo dele pra procurar um equilíbrio. 

TA - É isso eu não tenho não. Mas sabe uma coisa: embora ele tivesse essas coisas de loucura que tinha, todo mundo sempre fala que ele era uma pessoa extremamente amável, carinhoso. Acho que isso eu não sou muito, sou mais frio, distante. Mas várias pessoas citam que ele gostava de abraçar os outros. Meu avô também é assim.

OP - O Doutor Heli? 

TA - É. Se passa criança na rua, ele levanta pra dar um beijo sem nem saber quem é, coloca no chão e continua andando.

OP - Teu pai foi um dos pensadores da Tropicália. E foi um excelente letrista. Isso influenciou de alguma forma teu gosto musical? 

TA - Desde adolescente, eu sempre gostei de Caetano Veloso mas porque era o que eu escutava em casa. Era só o que tinha em casa. Meus amigos escutavam muita coisa de rádio FM naquele tempo e eu achava chatíssimo, gostava de escutar Transa, do Caetano. Escutava Jimi Hendrix muito antes da idade em que todo mundo começa a escutar. E coisas de literatura... literatura de vanguarda, revista Pólen, umas coisas de poesia que tinha lá em casa que eu ficava folheando quando era pequeno sem saber o que era direito. Tinha uma foto lá em casa do meu pai vestido de vampiro em Copacabana no meio da rua e o Wally Salomão vestindo um barril com duas alças. Tinha isso na sala! Se eu não me engano era um pôster que vinha nas páginas centrais de uma revista. Cresci achando essas coisas normais.

OP - Tinha outras coisas do teu pai espalhadas pela casa? 

TA - Minha mãe tinha muito jornal, as colunas dele, as coisas que ele produzia. E na casa dos meus avós em Teresina tinha muita foto dele. Como ele era filho único, era foto pela casa inteira. Coisa de mãe, né? Parecia que lá eu ficava convivendo com ele. Minha mãe guardava mais essa parte do trabalho. Era como se os dois lados se complementassem.

OP - Em relação à literatura, você se interessa pelo trabalho do seu pai? 

TA - Desde cedo eu tive contato com poesia de vanguarda e não entendia nada, achava sem pé nem cabeça. Aí eu cresci e continuei sem me interessar muito.

OP - Você é piloto há quanto tempo? 

TA - Espera aí. (Faz um pouco de silêncio) Caramba! É isso mesmo. Tive que contar de novo porque pensei que estava errado. Mas são 16 anos. Comecei com 16. Comecei curso de pilotagem aos 15 e comecei a voar com 16 e estou trabalhando na Varig há 12 anos.

OP - O que você mais gosta na profissão? 

TA - Eu sempre gostei de aviação, embora não goste muito de viajar. Ao contrário da maioria que escolhe a profissão pelo fato de estar sempre em um outro lugar, eu não gosto muito disso. Tanto que a melhor época da minha vida foi quando eu trabalhei na ponte aérea Rio-São Paulo e dormia todo dia em casa. Essa história de estar dormindo em hotel, arrumando e desarrumando mala não faz muito a minha, não. O meu sonho é morar em Fortaleza, fazendo a ponte aérea Fortaleza-Jijoca-Fortaleza (risos). Nunca consegui me identificar com uma profissão tradicional. Pra desespero da minha avó por parte de pai que queria que eu fosse - acho que por causa do filho que foi a primeira decepção dela - engenheiro, doutor ou advogado.

OP - Você está ajudando de alguma forma o Toninho Vaz, que está fazendo a biografia do seu pai? 

TA - Estou. Ele fez a biografia do Paulo Leminski que ficou muito legal: O Bandido que sabia latim. Excelente. Não sei em que parte ele está mas sei que está em andamento. A vontade dele é compreender como uma pessoa que morreu tão nova, como meu pai, pode até hoje ser tão falada. Como uma pessoas viveu tão pouco e produziu tanto. (...) Eu estava aqui procurando o livro Os Últimos Dias de Paupéria que eu tenho e acabei de descobrir que ele se encontra aí em Fortaleza. Às vezes tem disso, eu quero pegar um negócio e está aí em Fortaleza. Eu queria encontrar para ler umas passagens que acho fantásticas. São textos que ele escreveu quando fazia os auto-exílios em Teresina, no Meduna. Era um hospício onde ele se auto-internava.

TRECHOS
''10/10
(...)
Pela primeira vez estou sentindo de fato o que pode ser uma prisão. Aqui, as portas que dão para as duas únicas saídas existentes, estão permanentemente trancadas - e há uma pequena grade em cada uma delas, de onde se pode ver os corredores que dão para as outras galerias. Depois delas, uma espécie de liberdade. Não se fica trancado em celas aqui dentro: é permitido passear até rachar por um corredor de aproximadamente 100 metros por 2,5 de largura. Somos 36 homens aqui dentro, 36 malucos, 36 marginais - de qualquer maneira esperamos a ''cura'' no sanatório como a sociedade espera que os bandidões das cadeias se ''regenerem'' etc, etc. Aqui, o carcereiro é chamado de plantonista - e são aqueles homens de branco sobre os quais Rogério se referiu um dia, há pouco tempo. Aqui, nesta vida comunitária, a barra é pesada, como eu gosto. Minha enfermaria tem 12 camas ocupadas por doentes mentais de nível que poderia muito bem ser classificado pelo IBOPE como pertencentes às classes C, D, Z. Estamos aí! Em cana. O chato é a comida, que é péssima''

''13/10

Eu: pronome pessoal e intransferível. Viver: verbo transitório e transitivo, transável, conforme for. A prisão é um refúgio: é perigoso acostumar-se a ela. E o dr. Oswaldo? Não exclui a responsabilidade de optar, ou seja:?''


Trechos de Os Últimos Dias de Paupéria, de Torquato Neto. 


Entrevista publicada no jonal O Povo, de Fortaleza - CE, no dia 9 de novembro de 2004.
 

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Tropicalismo para principiantes



Um filme, chamado “Bonnie and Clyde” está fazendo agora um tremendo sucesso na Europa. E com uma força tão grande que sua influência estendeu-se à moda, à música, à decoração, às comidas e aos menores hábitos das pessoas. São os anos trinta que estão sendo revividos. Bem por dentro dessa história e à procura de um movimento pop autenticamente brasileiro, um grupo de intelectuais reunidos no Rio – cineastas, jornalistas, compositores, poetas e artistas plásticos – resolveu lançar o Tropicalismo. O que é? 

Assumir completamente tudo o que a vida dos trópicos pode dar, sem preconceitos de ordem estética, sem cogitar de cafonice ou mau gosto, apenas vivendo a tropicalidade e o novo universo que ela encerra, ainda desconhecido. Eis o que é.

Porta-voz do tropicalismo, por enquanto. É o jornalista e compositor Nelson Motta, que divulgou essa semana, num vespertino carioca, o primeiro manifesto do movimento. E fazem parte dele, entre outros: Caetano Veloso, Rogério Duarte, Gilberto Gil, Nara Leão, Glauber Rocha, Carlos Diégues, Gustavo Dhal, Antônio Dias, Chico Buarque, Valter Lima Jr. e José Carlos Capinam. 

Muitas adesões estão sendo esperadas de São Paulo e é possível que Rogério Duprat, Júlio Medaglia e muita gente mais (os irmãos Haroldo e Augusto, Renato Borghi etc.) tenham suas inscrições efetuadas imediatamente. O papa do Tropicalismo – e não poderia faltar um – pode ser José Celso Martinez Correa. Um deus do movimento: Nelson Rodrigues. Uma musa: Vicente Celestino. Outra musa: Gilda de Abreu. 

O Tropicalismo, ou Cruzada Tropicalista, pode ser lançado qualquer dia desses numa grande festa no Copacabana Palace. A piscina estará repleta de vitórias-régias e a pérgula enfeitada com palmeiras de todos os tipos. Uma nova moda será lançada: para homens, ternos de linho acetinado branco, com golas bem largas e gravatas de rayon vermelho; as mulheres devem copiar antigos figurinos de Luiza Barreto Leite ou Iracema de Alencar. Em casa, nada de decorações moderninhas, rústicas ou coloniais. A pedida são móveis estofados em dourado e bordô, reproduções de Osvaldo Teixeira e Pedro Américo, bibelôs de louça e camurça, retratos de Vicente Celestino, Emilinha Borba e Cézar de Alencar. Nada de Beatles, nada de Rolling Stones. E muitos pufes, centenas de almofadas. 

O Dia das Mães, o Natal e o reveillon do jaguar serão as grandes festas do Tropicalismo, que exige eventos e efemérides. 25 de agosto é data importantíssima. E ninguém perderá uma parada de 7 de Setembro. Desfile de escolas de samba (em cadeiras numeradas) e o baile do Municipal são obrigatórios. Revistas de Gomes Leal, shows de Carlos Machado e filmes de Mazzaropi serão assuntos discutidíssimos. Cinerama também. Um ídolo: Wanderley Cardoso. Uma cantora: Marlene. Um intelectual: Alcino Diniz. Um poeta: J.G. de Araújo Jorge. Um programa de TV: Um Instante Maestro. Uma canção: “Coração Materno”. Um gênio: Chacrinha. 

E daí para a frente. Aliás, os líderes do Tropicalismo anunciam o movimento como super-pra-frente: 

- É brasileiro, mas é muito pop. 

O que, no fundo, é uma brincadeira total. A moda não deve pegar (nem parece estar sendo lançada para isso), os ídolos continuarão os mesmos – Beatles, Marilyn, Che, Sinatra. E o verdadeiro, grande Tropicalismo estará demonstrado. Isso, o que se pretende e o que se pergunta: como adorar Godard e Pierrot Le Fou e não aceitar “Superbacana”? Como achar Felinni genial e não gostar de Zé do Caixão? Porque o Mariaaschi Maeschi é mais místico do que Arigó? 

Tropicalismo pode responder: porque somos um país assim mesmo. Porque detestamos o Tropicalismo e nos envergonhamos dele, do nosso subdesenvolvimento, de nossa mais autêntica e imperdoável cafonice. Com seriedade.

Esse texto está contido no livro "Torquatália: do lado de dentro" de organização de Paulo Roberto Pires, todavia essa versão foi retirada do site Tropicalia.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

vida e morte de torquato neto*


André Monteiro**
escorpião, veneno delicado
traços ternos e tesos de guerreiro apaixonado
escorpião, água de entranha
seu segredo sua ferida saída
precisa sina de anjo torto
negra solidão do cosmos
não se trai em sua própria traição
todo dia é dia D
amar-te amor-te morrer
entre hades e ares
o arco aflito do corpo fala com o fogo e o frio na língua
e não encontra palavra
escorpião:
o fim é o início da linha da mão

escorpião é o signo de minha mãe
minha mãe é o signo de escorpião
o signo é o escorpião de toda vida
a vida é o escorpião de todo signo

* ...09 de novembro de 1944 & 10 de novembro de 1972...
__________
**André Monteiro nasceu em São João Del Rei, Minas Gerais e é pós-doutor em literatura pela PUC-Rio e professor de Literatura Brasileira na UFJF. Publicou A ruptura do escorpião: Torquato Neto e o mito da marginalidade (2000) e Ossos do ócio (2001), ambos pela Editora Cone Sul. Participou ainda como co-autor dos livros Antologia Massa-Nova (Fortaleza), Caos Portátil (México) e Livro de Sete Faces (Juiz de Fora).
Poema publicado incialmente no blog Géleia Geral #001

quinta-feira, 15 de março de 2012

Explicação do fato II

Também tenho uma noite em mim tão escura
que nela me confundo e paro
e em adágio cantabile pronuncio
as palavras da nênia ao meu defunto,
perdido nele, o ar sombrio.
(Me reconheço nele e me apavoro)
Me reconheço nele,
não os olhos cerrados, a boca falando cheia,
as mãos cruzadas em definitivo estado, se enxergando,
mas um calor de cegueira que se exala dele
e pronto: ele sou eu,
peixe boi devolvido à praia, morto,

[Torquato Neto]
exposto à vigilância dos passantes.
Ali me enxergo, à força no caixão do mundo
sem arabescos e sem flores.
Tenho muito medo.
Mas acordo e a máquina me engole.
E sou apenas um homem caminhando
e não encontro em minha vestimenta
bolsos para esconder as mãos, armas, que, mesmo frágeis,
me ameaçam.
Como não ter medo?
Uma noite escura sai de mim e vem descer aqui
sobre esta noite maior e sem fantasmas.
como não morrer de medo se esta noite é fera
e dentro dela eu também sou fera e me confundo nela e
ainda insisto?
Não é viável.
Nem eu mesmo sou viável, e como não? Não sou.
O que é viável não existe, passou há muito tempo
e eram manhãs e tardes e manhãs com sol e chuva
e eu menino.
eram manhãs e tardes e manhãs sem pernas
que escorriam em tardes e manhãs sem pernas
e eu sentado num tanque absurdamente posto no meio da rua,
menino sentado sem a preocupação da ida.
E era todo dia.
Havia sol
e eu o sabia
sol: era de dia
Havia uma alegria
do tamanho do mundo
e era dia no mundo.
Havia uma rua
(debaixo dum dia)
e um tanque.
Mas agora é noite até no sol.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Explicação do fato I

Impossível envergonhar-me de ser homem.
Tenho rins e eles me dizem que estou vivo.
Obedeço a meus pés
e a ordem é seguir e não olhar à frente.
Minúsculo vivente entre rinocerontes
me reconheço e falho
e insisto.
E insisto porque insistir é minha insígnia.
O meu brasão mostra dois pés escalavrados
e sobram-me algumas forças: sei-me fraco
e choro.
E choro e nem assim me excedo na postura humana:
sofro o corpo inteiro, pendo e não procuro
a arma em minhas mãos.
Sei que caminho. É só.
Joelhos curvam-se, amaziam ao chão que queima
e me penetra e eu decido que não posso
envergonhar-me de ser homem.
A criança antiga é dique barrando o meu escôo
e diz que não, não me envergonhe.
Não me envergonho.
Tenho rins mãos boca orgão genital e
glândulas de secreção interna:
impossível.
No entanto sinto medo
e este é o meu pavor.
Por isso a minha vida, como o meu poema,
não é canto, é pranto
e sobre ela me debruço
observando a corcunda precoce
e os olhos banzos.

(Torquato Neto)

A volta do poeta da geléia geral

Carlos Ávila*

Dois alentados volumes trazem de volta a obra dispersa do poeta, letrista e jornalista Torquato Neto (1944-1972). Sob o título geral de "Torquatália”, os dois livros apresentam os subtítulos "Do Lado de Dentro" e "Geléia Geral".

O primeiro reúne poemas, letras de canções, textos de manifestos, correspondências e um diário; o segundo, basicamente, todo o trabalho jornalístico de Torquato realizado no Rio de Janeiro: os textos sobre música popular escritos no extinto "Jornal dos Sports", uma breve passagem pelo suplemento “Plug” do também extinto "Correio da Manhã" e, finalmente, a famosa coluna "Geléia Geral", publicada na "Última Hora". A competente organização de "Torquatália" é do professor Paulo Roberto Pires, da Escola de Comunicação da UFRJ, autor de uma esclarecedora introdução e responsável também pelas notas e pela cronologia final.

Torquato Pereira de Araújo Neto nasceu em Teresina, no Piauí, em 9 de novembro de 1944. Estudou em Salvador e seguiu depois para o sul, onde viveu no eixo Rio-São Paulo, trabalhou como jornalista e participou do movimento de renovação da música popular brasileira, unindo-se a compositores como Edu Lobo, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Capinam e outros.

Com espírito questionador e aguçada consciência crítica, Torquato foi um poeta de seu tempo, um tempo um tanto sombrio sob a ditadura militar que sufocava o país. Nesse período conturbado da vida brasileira, marcado simultaneamente pela repressão política e pela grande criatividade (é a época dos teatros Arena e Oficina, da arte ambiental de Hélio Oiticica, dos festivais de MPB, do cinema de Glauber Rocha e depois dos "marginais" Bressane e Sganzerla, da redescoberta de Oswald de Andrade pelos poetas concretos etc.), o poeta compôs algumas canções marcantes, onde palavra & som se integram à perfeição: "Geléia Geral", com Gilberto Gil; "Mamãe Coragem", com Caetano Veloso, e "Let’s Play That", com Macalé. Torquato foi um dos mais radicais integrantes do tropicalismo, um movimento que propunha, segundo ele, num texto da época (1968), "assumir completamente tudo o que a vida dos trópicos pode dar, sem preconceitos de ordem estética, sem cogitar da cafonice ou mau gosto, apenas vivendo a tropicalidade e o novo universo que ela encerra, ainda desconhecido". Ou seja, uma grande mistura estética (Chacrinha e Oswald de Andrade; guitarra elétrica e berimbau; concretismo e cordel; Godard e Zé do Caixão; Stockhausen e Vicente Celestino; altos e baixos repertórios) e um comportamento irreverente e anticonvencional.

No final de 1968, pouco antes da decretação do AI-5, Torquato parte para a Europa juntamente com Hélio Oiticica. No retorno ao Brasil, já afastado dos antigos companheiros tropicalistas, volta à agitação cultural através da coluna "Geléia Geral" (mesmo título da canção, extraído de um manifesto do poeta Décio Pignatari, na revista "Invenção": "na geléia geral brasileira alguém tem de exercer as funções de medula e osso").

Na coluna, publicada no jornal carioca "Última Hora", Torquato atacou a institucionalização do cinema novo, o que acabou levando à sua participação ativa em filmes “udigrúdis” rodados em super-8 por Luiz Otávio Pimentel e Ivan Cardoso. Torquato atuou como vampiro, por exemplo, em "Nosferatu no Brasil". "Um vampiro ensolarado, malandro e desinibido, tropicalizado em cores berrantes, para inveja de seus cinzentos colegas dos castelos dos Cárpatos", na descrição do poeta e crítico Haroldo de Campos. O poeta piauiense também projetou e coordenou a edição única da revista "Navilouca" -uma publicação que buscava aliar toda uma nova produção de poetas, cineastas e artistas plásticos, como Waly Salomão, Ivan Cardoso, Hélio Oiticica, Lígia Clark, Rogério Duarte, Chacal, Duda Machado etc. aos trabalhos dos poetas concretos de São Paulo, Augusto & Haroldo de Campos e Décio Pignatari -mas não conseguiu vê-la editada em vida (a revista só sairia em 1974).

Sua trajetória artístico-vivencial foi rápida e acidentada, incluindo polêmicas e rompimentos, muito álcool (o poeta se submeteu a várias internações) e drogas, até seu final trágico, o suicídio na madrugada do dia 10 de novembro de 1972, depois da festa de aniversário numa boate no Rio.

A obra de Torquato, dispersa por jornais e revistas, mais algum material inédito, foi resgatada postumamente no volume "Os Últimos Dias de Paupéria", organizado pelo poeta Waly Salomão e por Ana Maria Duarte -artista gráfica e mulher de Torquato (a primeira edição saiu pela editora Eldorado, do Rio, em 1973; a segunda edição, revista e ampliada, pela paulista Max Limonad, em 1982). "Torquatália" reproduz o conteúdo das edições anteriores e acrescenta outras produções do poeta piauiense.

No primeiro volume -"Do lado de dentro"- chamam atenção, particularmente, os "inéditos de juventude", a ampliação do "cancioneiro" (revelando outras letras e parcerias) e a intensa correspondência estabelecida com Hélio Oiticica.



Os poemas e textos sobre cinema, os cadernos com anotações e o diário -escrito num hospital psiquiátrico no Engenho de Dentro (RJ)- já haviam sido incluídos em "Os Últimos Dias de Paupéria". Na cronologia final, Paulo Roberto Pires informa que havia também um caderno, hoje perdido, com anotações sobre uma experiência-limite de Torquato: durante um mês, ele tomou LSD todos os dias e registrou suas impressões.

Os poemas da juventude de Torquato, escritos entre 1961 e 1962, que estavam guardados na casa de seus pais e só agora são publicados, apontam para futuros procedimentos em sua obra. Há neles, ainda que embrionariamente, o gosto pelas citações, o diálogo intertextual (leia-se, por exemplo, o poema intitulado "Tema", que cita e comenta o emblemático "José", de Carlos Drummond de Andrade -aliás, uma forte influência em todo o trabalho de Torquato), o tom crítico, a ironia e a sátira, e até sinais do lirismo desencantado de sua fase final.

A ampliação do "cancioneiro", com letras de canções desconhecidas, várias inclusive não gravadas, é interessante, mas não apresenta grandes lances criativos no nível de uma "Geléia Geral" ou de uma "Mamãe Coragem", composições antológicas e mais conhecidas de Torquato. Já a correspondência "casada" com Hélio Oiticica é surpreendente, forma todo um painel de época.

Escritas entre 1971 e 1972, as cartas retratam um período rico e tumultuado: Oiticica numa Nova York elétrica e vanguardista, no auge de seu experimentalismo estético; Torquato, ao contrário, num Rio de Janeiro sombrio, sob a ditadura militar, "completamente perdido depois de um ano na Europa (1968-69), rompido com os tropicalistas, em busca de um rumo profissional e acumulando frustrações" -segundo o organizador do volume.

Questões variadas afloram nesse diálogo epistolar, como a formatação de uma imprensa alternativa no país e a querela cinema novo versus cinema marginal. Uma curiosidade: a última carta foi enviada por Torquato de Teresina, onde esteve internado no Sanatório Meduna. Arte & vida, vida & arte estão coladas e são indissociáveis nessa instigante correspondência. No segundo volume -"Geléia Geral"- está agrupada a produção jornalística de Torquato, ou seja, as colunas que ele assinou na grande imprensa do Rio. Pela primeira vez são reunidos os textos da coluna "Música Popular", da fase inicial de Torquato, então com apenas 23 anos, publicados no "Jornal dos Sports".



Ali está registrada toda a movimentação da geração pós-Bossa Nova (Chico Buarque, Caetano, Gil, Capinam, Edu Lobo, Paulinho da Viola etc.), da qual Torquato fazia parte, ou seja, um período bastante criativo da música popular brasileira, época de festivais da canção e véspera da explosão tropicalista. As colunas são basicamente informativas, com uma série de pequenas notas sobre gravações e lançamentos de discos, shows e programas de TV; às vezes, pequenas entrevistas com seus pares contemporâneos.

Em geral, são textos bem simples e diretos, nos quais já despontam algumas opiniões polêmicas (como uma crítica ao compositor Ataulfo Alves, da velha guarda) que anunciam ao longe o tom mais contundente da "Geléia Geral". Na passagem brevíssima pelo suplemento “Plug” (apenas três textos, em junho de 1971), Torquato migra para a área do cinema e inicia uma cruzada crítica ao cinema novo de Glauber Rocha & companhia; é a época da Embrafilme e do seu contraponto audiovisual: o cinema marginal de Rogério Sganzerla e Júlio Bressane.

Em agosto de 1971, Torquato iniciou a sua última participação na grande imprensa carioca, com a coluna "Geléia Geral", na "Última Hora". Esses textos também já haviam sido reunidos na segunda edição de "Os Últimos Dias de Paupéria" -reproduzidos novamente em "Torquatália", revelam a face mais radical do poeta/letrista em tempos pós-tropicalistas.

No pequeno espaço da coluna, Torquato aprofunda as críticas ao cinema novo e promove as produções marginais de Sganzerla e Bressane -juntamente com as alternativas em super-8 (esta bitola era a grande novidade naquele momento) de Ivan Cardoso. Abre espaço também para o pensamento estético de Oiticica, revela novos poetas (Waly, Chacal) e músicos (Luiz Melodia, Carlos Pinto), batalha por uma política limpa e correta em relação aos direitos autorais, reproduz textos e traduções de Augusto & Haroldo de Campos e de Décio Pignatari. Mas não deixa de noticiar e comentar intensamente os lançamentos e novidades da música popular brasileira, com destaque para o grupo baiano (Caetano, Gil e Gal Costa).

A coluna "Geléia Geral" funcionou como um verdadeiro "respiradouro" em meio à censura e repressão que se abateram sobre a imprensa e a arte produzida no período militar no Brasil. Era um enclave alternativo na grande imprensa, um ruído em meio ao marasmo e ao conformismo, ainda a ser devidamente avaliado e estudado.

Sempre se encontra aqui e ali algum material disperso de Torquato, através de pesquisas em arquivos e consultas a estudiosos e colecionadores. "Torquatália", com seus dois alentados volumes, ampliou bastante a reunião dos escritos do poeta piauiense, hoje tema de teses e monografias na área acadêmica.

Poderiam ter sido incluídos também, por exemplo, os textos escritos para as contracapas do primeiro LP de Gil, "Louvação" (onde Torquato afirma que "há várias maneiras de se cantar e fazer música brasileira, Gilberto Gil prefere todas") e para o pouco conhecido e nunca relançado LP "Gil-Chico-Veloso por Claudete Soares", com arranjos de Rogério Duprat.

Poderiam ser incluídos também os textos dispersos pelas páginas do tablóide baiano "Verbo Encantado", um deles sobre Luiz Melodia; as letras de "Sem essa aranha" (parceria com Carlos Galvão e gravação de Lena Rios, num compacto da antiga Philips) e "Um dia desses eu me caso com você" (parceria e gravação de Paulo Diniz); as entrevistas à revista "Amiga" (juntamente com Sérgio Ricardo, Marcus Vinícius e Renato Rocha) e ao jornal "Opinião", em 1971; os 17 fragmentos poéticos inéditos publicados pela revista cearense "Araia Pajéurbe", juntamente com uma entrevista do pai do poeta, dr. Heli, etc.

Enfim, não é possível incluir tudo. Dois pequenos reparos à edição: faltou informar que Nara Leão também gravou "Mamãe Coragem" e que as composições "Que Película" e "Quase Adeus" não ficaram inéditas, mas foram gravadas por Nonato Buzar num vinil da RCA Victor, em 1970.

"Torquatália" reapresenta o poeta piauiense às novas gerações, com excelente contextualização no espaço e no tempo. Os dois volumes montam um retrato possível do "torto" Torquato, criatividade e sensibilidade à flor da pele; resgatam com grandeza a vida-obra -dispersa e fragmentada em palavras, sons e imagens- do "menino infeliz" de Teresina.

*É poeta e jornalista, autor de "Bissexto sentido" e "Poesia pensada", entre outros.

Resenha publicada, inicialmente, no site Trópico.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

cogito



eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível

eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora

eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim

eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranquilamente
todas as horas do fim.

(Torquato Neto)